terça-feira, 30 de setembro de 2008

Outros setembros




Agora compreendo todos
aqueles meses de setembro.

O gosto e o desgosto
são incompreensíveis
quando ainda estão por dentro.

O sabor ruim foi imposto
e o bom não me lembro.

Porém e por bem, lembro-me
do rosto, do cheiro, do “não”, do peito
aos prantos apenas (não) sabendo...

ser. E assim sendo, fui.
Alguns lamentos e adendos
depois... e hoje, sou.


Obra: Picasso - Mulher chorando com lenço (1937)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

A pena do povo




É tudo mentira!

Não tem água nesse poço
Nem ovo nesse bolo
A alegria é fria
O fogo não queima
Cobertores nos problemas...

O comercial é tolo
A TV muito pequena
O conteúdo é pouco
O gozo vira cena
O cenário é solto...

E no fim, o soco não deixa roxo,
apenas o povo com pena.


Obra: A família - Tarsila do Amaral

domingo, 28 de setembro de 2008

Macro nos grãos




Enxergo pedras
em vez de grãos.
Espero pela expressão
de quem não se expressa.
Espera em vão onde a distração
não me desconversa.
O que era simples
desintegrou-se em farelos.
Todos estes complexos
e quando sós sem razão de ser.
A ilusão somente finge
até chegarmos perto.
O toque distingue
e a distância faz o inverso.


Foto: Kristal Moura

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Queima e passeia por dentro




Uma queimadura aflita
sem indícios de ser causada
por fagulhas ou fogo explícito.
Apenas uma ardência arredia
que passeia em rebeldia
nas vísceras e no espírito.


Foto: Daniel Lavenere

domingo, 21 de setembro de 2008

Seis da manhã




Há excesso de consciência
enquanto busco a escassez.
Dou goles que me engolem...
Será que os santos desistiram de vez?
Não sei. No espelho apenas palidez.
Desço através de tropeços,
e lá embaixo pergunto-me:
Enquanto eu descia o que a escada fez?
Apenas existiu. Mas a existência não me basta.
E as conseqüências dessa insatisfação
não me gasta, não me arrasta, não me afasta...
das 6:00... Já manhã?!?!?!?!
Pois é, passei pela madrugada.


Ilustração: Marcel Duchamp - Nu Descendo a Escada, 1912.

Tranças




A insegurança cansa
e cria essa distância.
A alegria é uma mentira
assim como aquelas tranças.
Constatações pequenas e tardias,
ou nada além de grandes desimportâncias...


Foto: WEB.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A tranquilidade em sua fonte




A tranquilidade do riacho
que respeita a idade das rochas
tão delimitadoras de espaço.

Mas há também respeito à juventude
dos peixes com seu nado
cheio de saúde e flexibilidade.


Foto: WEB - Autor não identificado.

domingo, 14 de setembro de 2008

P.A.I ( Parabenizo alguém importante)




Não caberia no bolso. Nem mesmo nas minhas bolsas, ainda que grandes. Além da quantidade, a diversidade de sensações. As contradições são por todas as condições que o sentimento primeiro, o amor, foi submetido. A simplicidade ficou perdida no meio do caminho, a complexidade me achou, e além disso, ofereceu-me a mão. Com ela atravesso ruas, ando no breu e brinco de ficar tonta. Amor e ódio. Orgulho e desprezo. Calor e frio. Presença e ausência. E todas os antônimos pela mesma pessoa. Menos o nada em relação ao tudo. Isto não. Algo é, não importa se bom ou ruim. E se importa, importante é, o que leva o seu aniversário também ser. Então comemoro do seu jeito, ou seja, bebemoro. Itaipavas no congelador. Ainda há gelo, mas o tempo descongela.

Ilustração: Joel Peter Witkin, 1987

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

As vacinações individuais




A campanha na mídia alertava. A minha vó também. A vacinação tinha prazo, mas eu nem precisei correr pro posto de saúde mais próximo. Instalaram um “stand” na faculdade. Na hora do intervalo lá fui eu para a fila. Alguns minutos observando entradas tensas e saídas sorridentes com um algodão no braço.
Não tenho medo, mas admito que não fico à vontade em saber que dentro de instantes irei encarar uma agulha. Um segundo e logo estava eu, também sorridente e com o algodão no braço. Na volta para casa refleti sobre a existência de um novo líquido, na quantidade de uma ampola, realizando um passeio, naquele momento, em meu corpo.
Fisicamente tudo normal. Mas pelo o que aprendi no colégio, estaria eu agora com um pouco de doença, mas para ter saúde. Contraditório, mas a medicina e a subjetividade da vida explicam o porquê dos anticorpos apenas nascerem dessa forma. E como o lado subjetivo é sempre o que mais me atrai, logo compreendi a importância de breves dias cinzas, das tolas lágrimas guardadas ou escorridas e das momentâneas faltas de apetite por tudo. São em circunstâncias desse caráter que a vida nos obriga através de campanhas de vacinações individuais a encarar uma agulha, colocar um líquido novo nas veias, para que os benditos anticorpos apareçam. O aparecimento destes não garante felicidade plena, mas nos preparam para encontros inevitáveis com as pequenas tristezas. O interessante é que estas nunca cessam, e além disso, são de várias naturezas, assim como as doenças. A erradicação é impossível. A vacinação para diferentes fins é recorrente, faz parte da essência humana. Na verdade me surpreendi com a capacidade da vida de nos preparar para as próximas batalhas, como uma tristeza aparentemente idiota nos prepara para enfrentar uma outra, de intensidade maior e que jamais poderíamos supor. Nada o que passamos é em vão, como todas as vacinas, até aquelas que não doem e não deixam marcas como a BCG. Tudo possui importância para a manutenção do corpo e da vida. Talvez seja isso o que chamam pelo nome de amadurecimento.

Foto: WEB.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Poesia-Presente




Entrego-lhe uma poesia
presente sem laço e embrulho
e ainda que tivesse caixa,
você a guardaria como entulho.

Mas considere a intenção
mesmo que o conteúdo não desperte
a atenção para olhos tão acostumados
em brilhar apenas com a televisão.


Ilustração: Wassily Kandinsky, Yellow, Red and Blue

Haicai da primavera ( primeiro verão)




aroma de verão
na minha mão sundow
no céu de todos sunup
.


Ilustração: Sol de Primavera - Beto Guedes

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

A póetica e a métrica do pôr do sol




A poética do pôr do sol
com a métrica do degradê da cor
em ser o que não é.

A única mistura pura
feita com pincéis e tintas distintas
numa moldura que não finda.


Foto: Pôr do sol - Zambujeira do Mar - José Matos.

sábado, 6 de setembro de 2008

Causas e consequências do cansaço




Marasmo. Vasto vazio
Oco denso, fosco e frio.
Fogo e espaço sem vento.
Motivo solto e perdido.
Poço sem luz e líquido.
Laços gastos e esquecidos.
O tempo é escasso e detido.
Entusiasmo é medicamento.
Adoecimento é arredio.
Cansaço para ser lido...


Ilustração: WEB

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Uma bela prisão




A bela presa
em seu reflexo
receia em sair.

Ensaia o rodar
da saia
para que não
tropece
caia
quebre
o espelho.

Ilustração: Picasso - Menina Diante do Espelho (1932)