segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

pós ventre




só no ventre
eu devia estar salva
dessa ânsia constante
por instantes
em que minha alma
salta exausta
de feliz ser


Foto: Carlos Bartolomeu

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Na paz do seu sorriso"




Em um depósito de muitas coisas inúteis eles acharam um vinil. De tão velho o estado da capa, os arranhões eram presumíveis. Agradável engano no momento em que observaram a bolacha atentos e de perto. Tudo estava perfeito e intacto, assim como um dia saíra da loja. Como será que foi esse dia? Pela data da dedicatória que hoje desvalorizaria se fosse colocado à venda, provavelmente um típico dia de verão. Três de fevereiro de mil e novecentos e setenta e nove. Com muito amor foi dado de Rogério para Beth. Será que “Abandono” tocou logo depois de “Na paz do seu sorriso”? Impossível. Ninguém guardaria algo de forma tão cuidadosa se a vida acontecesse na ordem que sugere o disco. E o estado da capa? Foi culpa de quem? Talvez o tempo. Mas independente do que tenha sido, o fato é que o que está dentro ainda toca. Agora no aparelho de vinil deles.

Foto: reprodução do achado.

domingo, 31 de janeiro de 2010

O existencialismo de um peixe




Não canso em ser feliz. Assim como um peixe não cansa em nadar. Ele não sabe o porquê e pra que, mas está sempre lá, nadando. Às vezes diminui o ritmo, possivelmente por se sentir desmotivado pela "natureza" que se mostra igual. Mas sempre continua. Eu também. Cansaço mesmo só em querer saber os motivos. É instinto e ponto. Há questões onde a sabedoria adquirida em observar um aquário é mais esclarecedora do que toda a filosofia humana.

Obra: Aquário - Cerino

domingo, 24 de janeiro de 2010

Sobre as flores




Se fossem flores
juro que não andaria
sobre...

Esmagar os futuros
frutos, não.

Prefiro o risco
de senti-los podres
na próxima estação.


Foto: Juliana Jacyntho Caldeira Meira

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

sobre o fundo




inverso é o mundo
quando da superfície
se sabe que o fundo
tem sempre raízes


Foto: Jorge Valente

domingo, 17 de janeiro de 2010

Calor




o suor pinga
a cerveja entorna
de tão bem vinda
onde a friagem
chega morna


Foto: Marco Alexandre

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

tombos




Já foi sangue
Já foi pus
Já foi casca

Foi o bastante
para um basta

Agora é pele
com uma pequena marca
ingênua pede:
-Não mais caia!

O tombo pode ser sonso
mas o que o sucede
nunca se disfarça


Foto: Paulo Alexandre Guia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Após




O ano começa

O escândalo da festa
e dos fogos
já não interessa

Dias que sopro
e que voam pelos meses

Os ignoro sem pressa
preocupada apenas
em matar fome e sede

Até que chega o Natal
meu único lembrete
de que chega mais um final


Foto: WEB.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

dois mil e dez




Purpurina lá no alto,
no asfalto eu:
- Me contamina com esse brilho
que ignora qualquer breu?

...

entre fogos e copos
entra dois mil e dez
na entrada me entorno
banho de champanhe
da cabeça aos pés



Foto: Jose Jorge Calinas Ribeiro

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Reflexões natalinas




A única expectativa boa e saudável que vivenciei foi no Natal. Ou melhor, nos natais. Todos na minha infância. Eu esperava a boneca mais linda de todas. Ganhava. Eu aguardava saborear a melhor das tortas de nozes. Comia. Eu sempre esperava mais. E bem mais vinha. Minha volta para casa era radiante, assim como o dia seguinte, com aquele cheiro de brinquedo novo no quarto. O natal tornou-se então a data mais esperada do ano, superando até o aniversário. Mas com o tempo a vida me ensinou justamente o contrário do que acontecia nesses narrados momentos. Uma lição oposta à gostosura das ceias: grandes expectativas geralmente tornam-se grandes decepções. Quanto mais velha eu ficava, melhor eu entendia esse processo. Até que ele se estendeu para o Natal. Na adolescência eu ainda alimentava uma certa expectativa pela data, mas nunca mais ela foi a mesma. Eu até ganhava presentes aguardados e saboreava a comida especial que parecia só existir na última semana de dezembro. Porém, Papai Noel tinha levado a magia. E nunca mais trouxe desde que deixei de acreditar nele. Mas de qualquer forma, o Natal não deixou de ser especial, pois é nele que vivencio uma falta de expectativa saudável e inteligente que eu devia estender para o resto do ano. Hoje não espero nada demais do Natal e realmente ele não se torna nada além disso. E assim eu volto para casa com uma felicidade tranqüila que me faz bem. Talvez seja o que chamam de paz.

Foto: Natal de 2008.