sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

A troca que virou perda




A perda do chinelo
talvez tenha sido
um singelo aviso
para que o lixo
não seja a saída.

Seria descabida,
precipitada
e sem sentido
com o que pretende
e com o que sente.


Ilustração: WEB

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Chumaços de algodão




O verão chega para meus olhos
através das formas das nuvens.
Grandes chumaços de algodão parados
à espera que os ventos os mudem.


Foto: Verão do ano passado na minha janela.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Nosso primeiro céu




O degradê do céu.
Como ser diante
do mais deslumbrante e
platônico fenômeno?
Fomos apenas dois seres sem sono.
Mas como? Não somos apenas um ser?
Então não fomos. Fomos o que somos.
Somos o que é. E ser um é.
E nós somos muito além
de qualquer coisa que aqui eu disser.


Foto: Praia do Jabaquara - Paraty - RJ - 01-01-08

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O balão




Soprou o balão
que o levaria
para distante.

Quis sair do chão
atrás de uma conquista
que a vista via como grande.

No entanto, lá de cima
tudo é tão pequeno.
Não adianta voar
para continuar por lá.

Sendo parte das nuvens
e tendo o vento
como única bússola
perde-se a própria busca.


Ilustração: WEB

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Sem magia




Os anos deram
um espanto
no encanto.

Já não encanta
então anda
pelos cantos.

Sem graça
a ciranda
da criança.

Só o observar
da dança
já cansa.

Idade trás
maturidade
que trás grades.

Olhos presos
e sem capacidade
de ver brinquedos.

Brincadeiras
viraram besteiras
para desprezo.

Então anoiteço
sem pinheiro
no meu endereço.


Ilustração: WEB

domingo, 23 de dezembro de 2007

Relato do meu vegetarianismo




No dia 6 do próximo mês, completa-se 1 ano de uma das decisões mais importantes e benéficas da minha vida, embora ainda não tivesse consciência clara sobre sua grandeza e suas conseqüências reais. Como a maioria, cresci sendo educada para considerar normal ter um pedaço morto de proteínas de origem animal em meu prato. E como é muito comum nessas educações de caráter cultural, nunca fui estimulada a questionar o porquê de estar reproduzindo o que me foi ensinado. O primeiro contato com esse questionamento acerca da alimentação carnívora versus a vegetariana foi em um livro de “ yoga” do meu avô, escrito por um indiano, onde é afirmado que o ser humano não carece do consumo de carnes, exceto em condições muitos raras, como os esquimós que necessitam de quantidades absurdas de gordura animal para se manterem num frio tão extremado. Outro ponto que me intrigou foi a afirmação por parte do autor do consumo de carne ser uma mera reprodução do que os nossos ancestrais caçadores dos tempos das cavernas faziam, o que era extremamente compreensível, já que naquela época não havia nem agricultura, quanto mais supermercado 24 horas, o que possibilitaria o planejamento alimentar. Então o instinto ordenava o consumo de toda a caça até quando fisicamente fosse possível, pois não se sabia quando seria a próxima. Isto também seria a explicação científica para o pecado da gula.

Muitos anos após, durante um sério regime de reeducação alimentar, conheci a soja. E para meu espanto, ela era uma delicia, ao contrário de sua má fama. Comecei a incluir, na minha alimentação, leite de soja, e, tempos depois, a soja em grãos, como substituto do gorduroso amendoim. No final de 2005, fiz amizade com Renata, uma vegetariana, que, ao contrário de muitos que seguem essa opção alimentar, não faz discursos e nem fica tentando converter seguidores. E como me assusto com radicalismos e pessoas que defendem suas idéias e escolhas como verdades universais, esse seu comportamento discreto me deixou à vontade para o esclarecimento de diversas dúvidas, o que me levou a pensar nessa possibilidade como algo concreto em minha vida. Comecei,então, a questionar o papel da carne em minha alimentação. As perguntas eram: “Até que ponto eu gosto de carne? Até que ponto é um simples hábito?” E foi assim que, em meados de 2006, cortei o que era simplesmente hábito: o frango grelhado da minha avó, que eu já consumia, há pelo menos, 10 anos em praticamente todas as refeições na casa dela. Já não havia menor prazer em consumir aquilo. Era, simplesmente, para ter a tal porção de proteína animal no prato. E essa pequena e primeira decisão foi bem mais agradável do que eu imaginava. No meu prato de almoço, couberam mais cores que não me engordavam, e, de quebra, ainda não ficava com a digestão pesada na parte da tarde. O segundo passo foi o corte nas refeições fora de casa. Ao invés de pastel de carne, um pastel de queijo. Prática que foi adotada facilmente por mim, já que o queijo sempre foi uma das minhas paixões alimentícias, concorrendo com os doces.

A terceira decisão foi um corte “quase total”: eu só consumia carnes em almoços, jantares ou festas comemorativas. Talvez porque não soubesse ainda lidar com o fato de que eu estava me tornando um ser fora dos padrões. Ainda tinha dificuldade, por exemplo, de ir a um jantar na casa de um parente, onde havia sido preparado um estrogonofe só para mim, e dizer que só comeria o arroz, a salada e a farofa. E isso já era final de 2006. No Natal e no Ano Novo, ainda consumi um pouco de carne, mas a lentilha já era uma presença mais forte no meu prato. No dia 5 de janeiro, fui a uma festa de casamento e me lembro da presença da carne do bufê ser praticamente ignorada, só abri algumas poucas exceções. No dia seguinte, dia 6, fui a uma feijoada na casa de um grande amigo. Não resisti. E me arrependi. Para uma pessoa que estava praticamente sem comer carne, o consumo daquelas carnes típicas de uma feijoada foi como uma bomba para meu estômago. No dia seguinte, a decisão estava tomada e anotada na minha agenda. O que considero o último passo foi em fevereiro, onde um vegetariano apareceu em minha vida, e está nela até hoje. Uma das primeiras conversas, logo no primeiro dia, foi exatamente sobre todo esse processo contado acima.

Durante este ano fiz diversas pesquisas sobre o tema, e com elas só confirmei e aumentei a lista de todos os benefícios adquiridos. Antes de ontem assisti a um vídeo onde era abordado o aspecto do sofrimento animal, e hoje fui a um almoço vegetariano. Cheguei a casa com a idéia desse texto, por isso que o fiz. Acho que ainda faltava um registro meu em relação a isso. Não para que os outros leiam, mas para mim mesma. Até porque esta decisão foi pessoal. Não teve caráter ideológico e espiritual. A única informação que pode ser realmente válida para os outros ao lerem esse texto é o questionamento que devemos fazer acerca do que vivemos, ou melhor, acerca de como “nos ensinam” a viver. Nem sempre o correto é o que estamos habituados. Nem sempre o caminho mais fácil é o melhor.

Por fim, dois esclarecimentos. Primeiro: não sou vegetariana. Sou, na verdade, ovolactovegetaria, pois consumo leite e derivados, como também ovos. Segundo: para tranqüilidade da minha família que temia pelo resultado, no meu último exame de sangue, realizado no mês passado, as quantidades de proteínas e de ferro estavam de acordo com as esperadas em uma pessoa saudável.

Foto: O preço da vida - 28-05-2007

Vídeos citados:
Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6

Alguns sites:
Sociedade Vegetariana Brasileira
Seja Vegetariano

SIMPLIcidade




A simplicidade
que a cidade
não contém.

Propagandas para propagar
o bem imaginário
de um consumo real.

Ruas asfaltadas para amenizar
a distância não projetada
da concentração espontânea.

Muito cimento e tudo cinza
como o trânsito tenso
que dialoga por buzinas.

Muitas pessoas
e poucos cumprimentos.
Todos a toa e sem sentimento.


Ilustração: WEB

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os velhos (re) novados




E os velhos
transformam-se
em novos.
E vice-versa.
Disse que os dias
eram monótonos
e sem pressa.
Talvez fosse a fumaça.
Afinal ela embaça
qualquer nova idéia.
Talvez fosse a paixão.
Afinal ela embeleza
até os feios tacos do chão.
Talvez fosse o embrião.
Afinal ele era pequeno demais
pra uma separação.
Talvez fosse a religião.
Afinal ela sempre convence
até quando mente e cai em contradição.
Talvez fosse a insegurança.
Afinal ela faz do adulto
novamente criança.
Talvez esteja nesse último talvez
a explicação
para atual transformação?
Talvez não. Certeza.


Foto: Apenas um exemplo ilustrativo na "Primavera dos Livros" - 02-12-07

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

As pedras e o inseto




As pedras desmoronam
de forma tão singela
que não criam pavor.

Apenas a dor do peso
de um medo quieto
sobre as costas.

E também nelas...

Um inseto que pensa ser
um ser maior. Melhor se
soubesse ser menor.

Assim saberia usar
sua pequenez e suas asas
ao ser soterrado sem dó.


Foto: Uma feira de terça.

domingo, 16 de dezembro de 2007

O mês com menos dias e grades




E se aquele mês fosse
o que não foi.
Mas não sabe e nunca soube
sobre quem ia
e sobre o que ia
acontecer.
Aconteceu que lhe deram uma chave
que abria exatamente o cadeado
daquelas grades invisíveis
ou visíveis na forma
de um abraço.


Foto: 05-06-07

Indissolúvel




Insólito demais
para este momento.
Óbvio que entendo
os motivos, assim como
os perigos.
Mas entender
não resolve e nem
dissolve o bem
dentro de todo mal.


Foto: A menta que não dissolve no mate - Prestige 01-12-07

sábado, 15 de dezembro de 2007

Na ponte




Quase queda
na ponte onde
se encontrava
a passagem completa
entre uma margem
e outra.
Mas não viram a seta,
e pro outro lado
não passaram.
E ainda quiseram
jogar a moça
no lago gelado.
Logo ela que rouca
gritava o caminho exato.


Foto: Museu da República - 02-12-07

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Algum grito




A escassez de idéias
gera mudez
que espera
por alguma voz.

Então este grito
não extenso
com o motivo
do próprio silêncio.


Foto: WEB - autor não encontrado

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A penúltima ida ao cinema antes das palavras do Doutor Aluízio: “Infecção urinária braba”

A dor nos lombares já estava forte, mas ainda sim consegui assistir e me encantar com este documentário, onde o mundo hippie e gay de São Fransisco entre 69 e 72 é contado, através dos sobreviventes e de ótimos registros fotográficos e cinematográficos dessa época louca, mágica e livre. Então uma recomendação: The Cockettes

Algumas fotos:


Tod@s



Dusty Dawn and Ocean




Hibiscus



Tina and Robert



Koelle


Fotos: http://www.altmanphoto.com/cockettes.html

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Luminosidades



A luz do poste é passiva.
A do sol não. Agressiva
para produzir suor.
E ambas são luzes
e não há nada que as mude.
Essencialmente iguais
e propositalmente diferentes.
Não reside na essência
a diferença. E sim no propósito.
E este é o que se faz
a partir do essencial: ser.


Foto: Museu da República - 02-12-07