sexta-feira, 20 de agosto de 2010




a ex-pressão
de quem não
de quem sem
de quem nunca
faz o que convém
e de si fez a opção
segunda


Foto: Manuela Monteiro

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

do poço para o rio




é preciso de algo para ser dito
algo que sinta alívio
de não existir
só-mbrio pra si

algo antes poço
algo depois rio
algo como água

água que mata sede
e deixa vivo
úmido e limpo
o verde, a boca
os pelos, a louça

e se assim não for
qual o sentido?


Foto: Olga Maria Rodrigues da Silva

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

uma escolha




estou satisfeita em não dar satisfações
e refeita de alguns nós
todos prós e de acordo com meu sorriso
que não sei como
não se dá
pelos motivos habituais
dos outros...
normais?

- normal é ser feliz!
é a resposta que ouço

e o que digo, escolho


Foto: Luis Gomes

terça-feira, 6 de julho de 2010

pe-s-cado




a raiva a-trai
como uma isca
que cai
sem dar pistas
do seu porquê


Foto: Elio Goncalves

segunda-feira, 5 de julho de 2010

des-troços




enquanto a casa cai
o pranto estilhaça
a certeza sem cabimento
de crer em tijolo
e cimento

tolos enganos
construídos num canto
frouxo e com vento


Foto: Roberto Martins

segunda-feira, 21 de junho de 2010

um vento, por favor




a escassez do tempo ao avesso de novo
mas dessa vez com a insensatez
de ter o desejo de vento
e não de assopro


Foto: Horácio Graça

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um abandono saboroso




Abandonei o blogg. Antes isso me causava enorme agonia. Agora nem sei o que me causa, mas nada negativo. Na verdade até me sinto um pouco melhor. Menos uma obrigação, ainda que esta seja daquelas que a gente inventa, sem nenhum dano concreto se não cumprida. Até queria mais obrigações assim, só pra ter o gosto de não cumprir. Essa é a parte chata de amadurecer, cada vez mais as coisas não podem deixar de ser cumpridas. DE JEITO NENHUM.

Foto: Cátia Saraiva

sábado, 29 de maio de 2010

Doença




Adoeço.
Esse é o preço
da recompensa.

Recompenso
Esse é o senso
da doença.


Figura: Web.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

mudez




a mudez in-forma uma expressão
morna e suave de quem sabe
que palavrear sem intenção
é insensatez e não uma mera
distração como era
até então


Foto: http://blogs.ua.pt/blogs/intangivel

domingo, 9 de maio de 2010

entulho


o entulho da sala
é o retrocesso
expresso por quem cala

além da falta de orgulho
também há
excesso de vergonha

um desafeto de barulho
para o quarto ao lado
que ainda sonha


Imagem: WEB.

terça-feira, 4 de maio de 2010

alergia


o lençol na janela venta para o sol
numa procura bruta que seca
a umidade doente de um lar
expressa nas manchas de mofo
e na ânsia de todos em espirrar


Foto: Galeria de árticotropical

terça-feira, 27 de abril de 2010

farelos para uns, cacos para outros




o descaso do acaso
abandona farelos
que pra pés sem chinelos
são como cacos

um passo errado
o vermelho é certo
antes um sonho disperso
depois um pesadelo caro

para um distraído
não existe errado
tampouco o certo
apenas vidros
:
objetos intrometidos
e indelicados


Foto: Ines

segunda-feira, 19 de abril de 2010

uma tentativa de verdade sobre o "só dez por cento é mentira"




Sábado não foi um dia qualquer. Até seria, caso não tivesse tomado a decisão de ir ao cinema. O incrível diante dos meus olhos. Para eles sobraram lágrimas. Para meu semblante, um sorriso. Sempre fui apreciadora das palavras, principalmente quando estão a serviço da poesia. Por isso Manoel de Barros nunca me foi distante, mas também não tão perto quanto gostaria. Descobri o porquê. Uma timidez traduzida por muitos como aversão às entrevistas, câmeras e sucesso (como geralmente é concebido). Uma postura incomum, mas ser comum seria impossível para um ser que transvê o mundo como ele. Segundo o próprio: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.” Assistir a um documentário sobre poesia onde as rimas e as estruturas parecem inexistir, enquanto que a beleza existe na mesma proporção, ou até de forma absoluta, é entrar em contato no que há de mais moderno no que é feito dentro do gênero hoje. O impressionante é essa modernidade toda ser feita por um sujeito que possui noventa e quatro anos e que basicamente trata das “insignificâncias” da natureza. Admiração e orgulho é tudo o que possuo por esse ser. Encerro aqui. Uma enorme timidez me abate ao tentar escrever algo sobre alguém que diz que “Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”

Ilustração: Karmo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

mundo




o mundo esgota
gota por gota
do fundo para a crosta
das nuvens para as pessoas

o mundo enjoa
de privada em privada
sopas reviradas
pelas bocas em desgraça

o mundo adoece
febre após febre
a pele desbota
a morte é cor da neve

o mundo morre
pulmão por pulmão
sorte dele ser
independente da civilização


Foto: Rui Miguel Pereira

domingo, 11 de abril de 2010

enfeite clandestino




a pergunta não feita
de tão imunda
clandestina enfeita
conversas inteiras
sem beleza alguma


foto: http://p-et-p.blogspot.com/