segunda-feira, 21 de junho de 2010

um vento, por favor




a escassez do tempo ao avesso de novo
mas dessa vez com a insensatez
de ter o desejo de vento
e não de assopro


Foto: Horácio Graça

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um abandono saboroso




Abandonei o blogg. Antes isso me causava enorme agonia. Agora nem sei o que me causa, mas nada negativo. Na verdade até me sinto um pouco melhor. Menos uma obrigação, ainda que esta seja daquelas que a gente inventa, sem nenhum dano concreto se não cumprida. Até queria mais obrigações assim, só pra ter o gosto de não cumprir. Essa é a parte chata de amadurecer, cada vez mais as coisas não podem deixar de ser cumpridas. DE JEITO NENHUM.

Foto: Cátia Saraiva

sábado, 29 de maio de 2010

Doença




Adoeço.
Esse é o preço
da recompensa.

Recompenso
Esse é o senso
da doença.


Figura: Web.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

mudez




a mudez in-forma uma expressão
morna e suave de quem sabe
que palavrear sem intenção
é insensatez e não uma mera
distração como era
até então


Foto: http://blogs.ua.pt/blogs/intangivel

domingo, 9 de maio de 2010

entulho


o entulho da sala
é o retrocesso
expresso por quem cala

além da falta de orgulho
também há
excesso de vergonha

um desafeto de barulho
para o quarto ao lado
que ainda sonha


Imagem: WEB.

terça-feira, 4 de maio de 2010

alergia


o lençol na janela venta para o sol
numa procura bruta que seca
a umidade doente de um lar
expressa nas manchas de mofo
e na ânsia de todos em espirrar


Foto: Galeria de árticotropical

terça-feira, 27 de abril de 2010

farelos para uns, cacos para outros




o descaso do acaso
abandona farelos
que pra pés sem chinelos
são como cacos

um passo errado
o vermelho é certo
antes um sonho disperso
depois um pesadelo caro

para um distraído
não existe errado
tampouco o certo
apenas vidros
:
objetos intrometidos
e indelicados


Foto: Ines

segunda-feira, 19 de abril de 2010

uma tentativa de verdade sobre o "só dez por cento é mentira"




Sábado não foi um dia qualquer. Até seria, caso não tivesse tomado a decisão de ir ao cinema. O incrível diante dos meus olhos. Para eles sobraram lágrimas. Para meu semblante, um sorriso. Sempre fui apreciadora das palavras, principalmente quando estão a serviço da poesia. Por isso Manoel de Barros nunca me foi distante, mas também não tão perto quanto gostaria. Descobri o porquê. Uma timidez traduzida por muitos como aversão às entrevistas, câmeras e sucesso (como geralmente é concebido). Uma postura incomum, mas ser comum seria impossível para um ser que transvê o mundo como ele. Segundo o próprio: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.” Assistir a um documentário sobre poesia onde as rimas e as estruturas parecem inexistir, enquanto que a beleza existe na mesma proporção, ou até de forma absoluta, é entrar em contato no que há de mais moderno no que é feito dentro do gênero hoje. O impressionante é essa modernidade toda ser feita por um sujeito que possui noventa e quatro anos e que basicamente trata das “insignificâncias” da natureza. Admiração e orgulho é tudo o que possuo por esse ser. Encerro aqui. Uma enorme timidez me abate ao tentar escrever algo sobre alguém que diz que “Quem anda no trilho é trem de ferro, sou água que corre entre pedras: liberdade caça jeito.”

Ilustração: Karmo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

mundo




o mundo esgota
gota por gota
do fundo para a crosta
das nuvens para as pessoas

o mundo enjoa
de privada em privada
sopas reviradas
pelas bocas em desgraça

o mundo adoece
febre após febre
a pele desbota
a morte é cor da neve

o mundo morre
pulmão por pulmão
sorte dele ser
independente da civilização


Foto: Rui Miguel Pereira

domingo, 11 de abril de 2010

enfeite clandestino




a pergunta não feita
de tão imunda
clandestina enfeita
conversas inteiras
sem beleza alguma


foto: http://p-et-p.blogspot.com/

terça-feira, 30 de março de 2010

um presente sem laço




se soubessem das cores
que nas flores não cabem
teriam dado as mãos
assim como
as fitas fazem


Foto: WEB.

sexta-feira, 19 de março de 2010

enjôo




se a verdade é perversa
então prefira a mentira
sempre sincera e de acordo
com a péssima mania
dos loucos – nós todos-
de girar e girar
até sentir enjôo


foto: Joaquim Nogueira

sábado, 13 de março de 2010

um pouco de tristeza já




Eventuais pequenas tristezas me proporcionam uma serenidade boa. Um sossego em meio ao bombardeio que sofremos por essa mídia do “ser feliz já”. O passado e o futuro são descartados por um presente que não pode deixar de ser sorridente e entusiasmado. Cansa ser feliz o tempo todo, pelo menos na forma pela qual a felicidade é vendida e vestida hoje. É curioso, mas ser triste de vez em quando tem me feito feliz. Um verdadeiro descanso, um alívio.

Foto: Benjamim Vieira.

sexta-feira, 12 de março de 2010

uma burrice




cometo a burrice do espelho
objeto pelo qual
o desprezo é impossível
e o desejo, um ideal


foto: mi.

terça-feira, 9 de março de 2010

espaços distintos




me entrelaço com a luz
de uma estrela que não condiz
com a falta de brilho que conduz
o seu espaço infeliz


Foto: Filipe da Veiga Ventura Alves