sábado, 29 de agosto de 2009

Pequena salvação




apodreço com o medo
da falta
de novo

mas agora escrevo
e isso me salva
um pouco

queria mesmo
é que salvasse
do que me é imposto


Foto: Maria José Amorim

*No post passado falei dos encontros. Esqueci de mencionar dos incomuns, mas não raros, encontros que começam como grandes desencontros.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Encontros




Os encontros são presentes do acaso. Uma alegria na rotina, que nem precisa ser triste, mas muitas vezes simplesmente nada é. E as pessoas não são as únicas a serem encontradas. Quem nunca encontrou com uma música, uma foto, uma frase ou com qualquer coisa que dê uma sensação mágica para determinado momento? Como se o desencontro passasse a não ter sentido algum, ainda que a razão mostre que isso seria muito simples. Era só ter atravessado a rua ou seguido à risca a dieta e não ter ido comprar sorvete. Já pensou em um amigo, sentiu saudades dele, e no mesmo dia, ou minutos depois, deu de cara com ele na rua? Ou num momento de total desolação descobriu uma canção ou um texto que parece ter sido feito por ou para você? É difícil não encontrar, mas é também muito fácil encontrar e não se dar conta disso. Não perceber a falta de lógica e o excesso de mágica que está no dia-dia faz dele muito sem graça. E a graciosidade não começa na expectativa dos encontros, mas em estar pronto para percebe-los por aí, por mais inusitados que pareçam. Nunca me esqueço da viagem em que fui em uma farmácia para saber onde tinha quartos para me hospedar e já no andar de cima encontrei o melhor remédio para meu descanso: uma boa cama.

Foto: Daniel Pimenta

domingo, 23 de agosto de 2009

AO = OA



O MAR
A MAR
A MOR
A = O
O = A
OA = AO?
AO MAR
ou
AMAR
VAMOS?
V AMO S
e i
r m!
d
a
d
e

Foto: Obra de uma criança na praia de domingo passado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

mentiras do pincel




não existe horizonte nas paredes
nem verde puro, nem fonte d´água
nem céu
no máximo tinta
com as mentiras do pincel


Foto: Rui Silva

domingo, 16 de agosto de 2009

Delícias




Domingo. Último dia de férias. Falta inspiração para o blogg, mas não para o resto. Os dias até ficaram bonitos e ensolarados. Hoje me dei de presente uma caminhada na beira da praia e um prato de massa suculento. A sobremesa ficou por conta de uma bomba de chocolate e um dormida em plena tarde. Pequenas delicias diante de grandes sorrisos.

Obra: "Passeio ao crepúsculo", Vincent van Gogh

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

anos de rugas e úlceras




um tanto perdida
e os anos de vida
não param de somar

devia ser invertida
essa ordem destemida
de enrugar

além das rugas
úlceras atrevidas
gemem cruas sem parar

leite não cura
azeite engordura
o sangue prestes a entornar


Foto: José Meneses

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Férias




A inexistência de relógios
é apenas um detalhe
dentro do ócio
que faz dos dias
um grande disfarce
para a falta
do que não se sabe.


Foto: Rui Ramos.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Uma revira(re)volta




Ódio que corrói...
Estou como ferrugem
que só sucumbe
quando destrói.
Desculpe.
Mas na minha história
uma reviravolta
que muito dói.
É que o vilão de agora
era meu herói.


Desenho: Vicente.

domingo, 26 de julho de 2009

"Evolição"




Ele sempre esteve certo.
Mas essa parede de certeza
não a protegia.
Nem o teto a deixava seca
enquanto chovia.
Então demoliram juntos
e viveram separados.
Anos e construções mais tarde,
alguns enganos e uma verdade:
Ele sempre esteve certo
em achar que estavam errados.


Foto: Maria Ivone

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Debaixo do temporal




A indiferença é uma prática árdua diária. É como estar encharcado debaixo de um temporal e fingir estar numa situação absolutamente normal. E esquecer da água com leptospirose nos pés e todos os papéis guardados na bolsa de pano que não podiam molhar. Para quem assiste a cena, do alto de uma janela e com os pés secos, são como detalhes. Mas para quem coloca os pés na poça, são sensações ruins do tamanho de um oceano. Uma inundação de desconfortos. Ás vezes a vida nos obriga a passar por eles. Às vezes não, quase sempre. Geralmente no verão, onde por ironia temos mais sol e calor e imploramos por chuva. Mas esse desejo não faz de um dia com temporal uma situação menos anormal para exercermos melhor a prática da indiferença. É sempre árdua mesmo.

Foto: Karina Bertoncini

terça-feira, 21 de julho de 2009

pés nunca serão raízes




o outro lado da montanha
se acanha
quando alguém o pisa

passos tiram o sossego
ocupam espaço
e comportam-se como visita

os moradores mesmo
são as raízes imóveis
que movem o começo da vida


Foto: Isabel Gomes da Silva

incerteza irresponsável




a incerteza que não cabe
de tão pequena
de tão leve

nem vale pena
guarda-la
por menor que seja
a caixa

mas é inevitável que escape
o invisível é irresponsável
e facilmente se espalha


Ilustração: Sofia Morgado.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A tarde




Era para ser apenas mais uma tarde. Não foi. Com ele nunca é. Companhia mais agradável não há. O engraçado é que na infância eu o considerava lento demais e confesso que isso me cansava um pouco. Mas hoje percebo que a agitada era eu. Na verdade ainda sou. A minha única evolução é ao menos sentir desejo de possuir a mesma calma e paz. Não é à toa que escolhi, ainda que inconscientemente, uma pessoa bem parecida para compartilhar a vida. Sim, eles são bem parecidos. Porém essas semelhanças e conhecidências não foram o que me levaram a começar esse texto. Foi a tarde de ontem. E nela estavam: eu, meu avô e o Centro do Rio de Janeiro. E entre uma obrigação e outra couberam muitas explicações sobre história, conversas, goles de suco de laranja americana (a mesma que ele tomava quando jovem na Travessa do Ouvidor), presentes divinos e mundanos e a ida ao Municipal que completava cem anos. Fomos apenas na porta, mas já foi o suficiente para terminar o passeio com chave de ouro. Na verdade com fotos na frente da águia de ouro. Mas como nada é perfeito, na bolsa estava apenas a câmera do celular. E apesar de amar a fotografia, confesso que nem era preciso o uso dela. Momentos como esse são registrados para sempre. Com ou sem tecnologia. Era preciso apenas estar ali.

Foto: Mãos dele.

sábado, 11 de julho de 2009

uma falta




Não é uma falta de ar
Mas é uma falta
Não desespera
mas causa
uma espera
exausta por algo
que salve a alma
dessa inércia
que te tão calma
estressa


Foto: Carlos Rocha

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Consumir pelo avesso




Sempre me interesso pelo avesso. Aprecio a costura, as linhas, os nós e as estampas ao contrário. Como está na vitrine é óbvio demais. Mas os olhos te todos os passantes, inclusive os meus, captam e logo consomem. Tornou-se tão banal esse processo. É a banalidade do consumo no qual o porquê e o pra quê nunca estão presentes. Hoje é difícil consumir sem se auto-sucumbir para tornar-se o que está do outro lado do vidro ou no folheto de anúncios. E isso de maneira nenhuma é uma mera crítica. É de fato uma autocrítica. Linhas gastas especialmente para mim. Linhas essas no sentido amplo da palavra. Admito encontrar nós, costuras erradas e excesso de linhas de vez em quando. Mas é tudo culpa minha. É quando consumo sem atentar nos avessos que tanto me interessam. Não se deve nunca perder os reais interesses de vista.

Foto: WEB.