quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Frustrações passeiam




As frustrações passeiam pelas ruas. Atravessam sinais e atropelam felicidades sinceras. Mas algumas, a sinceridade é tanta, que praticamente nada sofrem. No máximo arranhões. Imunes pela verdade. A violência da mentira mente quanto se considera mais forte e veloz. Esquece que está sempre sobre asfaltos. Todos cinzas, desprovidos de um colorido maior e tristes por criação.

Foto: Carla Silva

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

soco




Deu motivo sem perceber. Levou um soco. Os sonhos arroxearam pela quantidade de sangue preso. Não flui mais. Por enquanto gelo e tempo não resolveram. A recuperação lenta é da natureza dos hematomas psicológicos. O medo de encontrar a agressora tornou-se uma constante, assim como dos outros serem agressores em potencial.
A vontade de ignorar é grande. Um pouco maior é a de dizer umas verdades. Mas nada que a covardia maquiada pela educação da boa convivência não controle.

Foto: WEB.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

o quieto




a espera não faz parte
de qualquer sucesso

o quieto não cabe
num mundo onde os berros
são ditos suaves

o esperto é quem faz alarde
por nada e por pouco
certo de que os outros
são loucos e covardes


Foto: J.C

Em duas estações




Não percebo as cores da nova estação. A culpa não é dos óculos escuros. Nem da miopia. É da poeira que acumulou na vista. Já tentei passar pano úmido, seco e molhado. Joguei baldes de água também. E nada parece dissolver essa poeira cor de nublado. Sinto-me moradora de dois países. Vivo uma primavera lá fora que me contam, e um inverno aqui dentro que eu não conto.

Foto: Adir Luiz Ferreira

sábado, 18 de setembro de 2010

out




questa está out
questa está outra
questa está em outra
forma de viver
forma de sofrer
forma de velhice
que não deixa de ser
uma outra forma de infância
mas sem a ânsia constante por
uma outra forma


Foto: Joaquim Nobre

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sangra




sangra aos montes
saber que da origem
ele se esconde covarde

é incrível, espanta
como a realidade
não espanca a sua face

pois então,
sem classe nos espanco
até que a raiva passe


foto: Flavio Morais

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

in-ser-to




nem sempre o caminho reto
é o que menos enjoa

o meu enjoou pelo protesto
do vento violento
cheio de poeira e folhas

o preço de ser inseto
que nem sabe porque voa
e pousa em restos
como escolha
de uma vida toda


foto: Márcio Luiz.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

preto e branco




quando era preto e branco
até o pranto
causava algum encanto ou apreço

mas hoje, com esse tanto de cores
não há engano, nem espanto
tudo se sabe sobre



Foto: José Filipe




a ex-pressão
de quem não
de quem sem
de quem nunca
faz o que convém
e de si fez a opção
segunda


Foto: Manuela Monteiro

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

do poço para o rio




é preciso de algo para ser dito
algo que sinta alívio
de não existir
só-mbrio pra si

algo antes poço
algo depois rio
algo como água

água que mata sede
e deixa vivo
úmido e limpo
o verde, a boca
os pelos, a louça

e se assim não for
qual o sentido?


Foto: Olga Maria Rodrigues da Silva

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

uma escolha




estou satisfeita em não dar satisfações
e refeita de alguns nós
todos prós e de acordo com meu sorriso
que não sei como
não se dá
pelos motivos habituais
dos outros...
normais?

- normal é ser feliz!
é a resposta que ouço

e o que digo, escolho


Foto: Luis Gomes

terça-feira, 6 de julho de 2010

pe-s-cado




a raiva a-trai
como uma isca
que cai
sem dar pistas
do seu porquê


Foto: Elio Goncalves

segunda-feira, 5 de julho de 2010

des-troços




enquanto a casa cai
o pranto estilhaça
a certeza sem cabimento
de crer em tijolo
e cimento

tolos enganos
construídos num canto
frouxo e com vento


Foto: Roberto Martins

segunda-feira, 21 de junho de 2010

um vento, por favor




a escassez do tempo ao avesso de novo
mas dessa vez com a insensatez
de ter o desejo de vento
e não de assopro


Foto: Horácio Graça

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um abandono saboroso




Abandonei o blogg. Antes isso me causava enorme agonia. Agora nem sei o que me causa, mas nada negativo. Na verdade até me sinto um pouco melhor. Menos uma obrigação, ainda que esta seja daquelas que a gente inventa, sem nenhum dano concreto se não cumprida. Até queria mais obrigações assim, só pra ter o gosto de não cumprir. Essa é a parte chata de amadurecer, cada vez mais as coisas não podem deixar de ser cumpridas. DE JEITO NENHUM.

Foto: Cátia Saraiva