segunda-feira, 21 de setembro de 2009

cansaço




confesso o cansaço
em nunca fazer descaso
com quem sempre está indisponível

indisposta é a desculpa que sobra
numa forma formosa
o que me torna ainda mais risível


Ilustração: Paraíso Nilista

domingo, 20 de setembro de 2009

Minha vó e o Big Brother





É sempre igual. Passa o anúncio do Big Brother Brasil e minha vó aperta o botão do controle. Radical como sempre, ela se recusa até em ver as chamadas. E completa com a frase: “Isso é um retrocesso, no meu tempo saber da vida dos outros era falta de educação.”
Mal sabe ela que essa modalidade de falta de educação não está só na Tv. Está em todo lugar. São os novos tempos. Hoje em dia a curiosidade habitual do ser humano é vorazmente incentivada a tornar-se uma patologia vista com naturalidade.
A internet tornou-se um caso a parte na feitura dos curiosos de plantão. De certa forma fico aliviada dela não freqüentar o mundo virtual, afinal para ela não seria nada natural saber tudo o que os amigos dela fizeram, fazem ou vão fazer. E o contrário também. Porém como neta, admito ver com muita tranquilidade tais informações.
Porém outro dia, me peguei descobrindo algo bem íntimo de uma pessoa distante. Essa distância não é física. Tal pessoa mora relativamente perto, fez parte da minha vida durante um período curto, mas de fato não somos amigas e não nos vemos há meses. Apenas somos adicionadas num desses sites de relacionamento. Fui comentar com meu namorado a descoberta e ele prontamente disse: “O que a gente tem a ver com isso? Na verdade a gente nem devia estar sabendo disso.” É verdade, nem era para sabermos. Se não fosse a internet, talvez passaríamos a vida sem saber. Ou não. Mas mesmo que um dia soubéssemos, creio que seria de uma forma natural. Mas o que é natural hoje em dia? Enfim, fiquei intrigada de como a exposição é encarada com naturalidade atualmente. Eu, que não encontro com uma pessoa há anos, posso saber de uma informação que teoricamente apenas amigos íntimos e familiares teriam acesso. Claro, se a pessoa posta uma informação é porque ela quer que os outros saibam. Porém, no mundo virtual é tudo tão virtual que eu mesmo perco a noção desse saber às vezes. Muitas vezes coloco uma foto para um grupo de pessoas baixarem e nem me dou conta que todo o resto também pode acessar.
Me assustei. Fui ver as minhas fotos. Nossa, quantas eu não queria que todos tivessem acesso. Comecei então a compartilhar certos álbuns apenas para certas pessoas. Foram necessários apenas dez minutos para desistir. São muitas fotos e muitas pessoas. Impossível. Foi daí que me dei conta de como perdi controle da coisa. Tive a sensação de que nem sempre uso internet, é ela que me usa. Estou perdida entre tantas informações e fotos. Minhas e dos outros. No final das contas, somos geradores e consumidores de informações alheias. Alheias mesmo, no sentido amplo da palavra.
Minha vó é que está certa, saber da vida dos outros NÃO é NORMAL. Nem mesmo de um grande irmão.

Ilustração: WEB.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

brilhe (ponto de exclamação)




não ofusque meu brilho
busque o seu
ainda que no princípio
pouco ilumine
é melhor do que ser breu


foto: web.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

sebo




os livros de um sebo
foram deixados
trocados
achados
doados

por um motivo
que nunca se sabe
mas é indiferente
para quem
novamente os abre


Foto: Um livro meu, que inclusive está emprestado.

a feitura de sonsos




de tão boa, enjoa
e os enjôos não são poucos
vômitos e mais vômitos
mas depois joga água e ensaboa
na cara e nas mãos
e esfrega pasta
na boca

é assim que a espuma faz muitos sonsos
com a ajuda de sabão e escova


Foto: Joana

ên-fase




ênfase no pior
que não pede licença
e nem sente dó
de mim
e dos que estão
ao meu redor


Foto: Marco Souza

sábado, 5 de setembro de 2009

uma questão de matemática




Na foto um sorriso. Um mesmo. Não haveria de ter mais? Essa questão do menos e do mais sempre intriga. A mim e a todos. Os sinais que não acordam. Em tese subtração e adição se opõem, porém se completam. Um grito de socorro para a matemática! É de falta de lógica que padeço todos os dias.

Ilustração: WEB.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

dê-per-dão




Perdão. A palavra que faz toda diferença. O que diferencia os bons dos que assim não são. Não digo pessoas más porque é diferente não ser bom e ser mal. Pra quem perdoa a maldade não existe em seu sentido absoluto. A existência dela apenas se dá no sentido circunstancial e relativo. Logo, não perdoar é estar preso em circunstâncias e pequenas relatividades diante da grandiosidade da vida. Perdoar é ser livre. É clichê, mas é fato. A liberdade é difícil, mas não impossível. E com certeza bem mais feliz. Por isso dê-per-dão.

Foto: Daniel Pereira

sábado, 29 de agosto de 2009

Pequena salvação




apodreço com o medo
da falta
de novo

mas agora escrevo
e isso me salva
um pouco

queria mesmo
é que salvasse
do que me é imposto


Foto: Maria José Amorim

*No post passado falei dos encontros. Esqueci de mencionar dos incomuns, mas não raros, encontros que começam como grandes desencontros.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Encontros




Os encontros são presentes do acaso. Uma alegria na rotina, que nem precisa ser triste, mas muitas vezes simplesmente nada é. E as pessoas não são as únicas a serem encontradas. Quem nunca encontrou com uma música, uma foto, uma frase ou com qualquer coisa que dê uma sensação mágica para determinado momento? Como se o desencontro passasse a não ter sentido algum, ainda que a razão mostre que isso seria muito simples. Era só ter atravessado a rua ou seguido à risca a dieta e não ter ido comprar sorvete. Já pensou em um amigo, sentiu saudades dele, e no mesmo dia, ou minutos depois, deu de cara com ele na rua? Ou num momento de total desolação descobriu uma canção ou um texto que parece ter sido feito por ou para você? É difícil não encontrar, mas é também muito fácil encontrar e não se dar conta disso. Não perceber a falta de lógica e o excesso de mágica que está no dia-dia faz dele muito sem graça. E a graciosidade não começa na expectativa dos encontros, mas em estar pronto para percebe-los por aí, por mais inusitados que pareçam. Nunca me esqueço da viagem em que fui em uma farmácia para saber onde tinha quartos para me hospedar e já no andar de cima encontrei o melhor remédio para meu descanso: uma boa cama.

Foto: Daniel Pimenta

domingo, 23 de agosto de 2009

AO = OA



O MAR
A MAR
A MOR
A = O
O = A
OA = AO?
AO MAR
ou
AMAR
VAMOS?
V AMO S
e i
r m!
d
a
d
e

Foto: Obra de uma criança na praia de domingo passado.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

mentiras do pincel




não existe horizonte nas paredes
nem verde puro, nem fonte d´água
nem céu
no máximo tinta
com as mentiras do pincel


Foto: Rui Silva

domingo, 16 de agosto de 2009

Delícias




Domingo. Último dia de férias. Falta inspiração para o blogg, mas não para o resto. Os dias até ficaram bonitos e ensolarados. Hoje me dei de presente uma caminhada na beira da praia e um prato de massa suculento. A sobremesa ficou por conta de uma bomba de chocolate e um dormida em plena tarde. Pequenas delicias diante de grandes sorrisos.

Obra: "Passeio ao crepúsculo", Vincent van Gogh

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

anos de rugas e úlceras




um tanto perdida
e os anos de vida
não param de somar

devia ser invertida
essa ordem destemida
de enrugar

além das rugas
úlceras atrevidas
gemem cruas sem parar

leite não cura
azeite engordura
o sangue prestes a entornar


Foto: José Meneses

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Férias




A inexistência de relógios
é apenas um detalhe
dentro do ócio
que faz dos dias
um grande disfarce
para a falta
do que não se sabe.


Foto: Rui Ramos.