quarta-feira, 22 de julho de 2009

Debaixo do temporal




A indiferença é uma prática árdua diária. É como estar encharcado debaixo de um temporal e fingir estar numa situação absolutamente normal. E esquecer da água com leptospirose nos pés e todos os papéis guardados na bolsa de pano que não podiam molhar. Para quem assiste a cena, do alto de uma janela e com os pés secos, são como detalhes. Mas para quem coloca os pés na poça, são sensações ruins do tamanho de um oceano. Uma inundação de desconfortos. Ás vezes a vida nos obriga a passar por eles. Às vezes não, quase sempre. Geralmente no verão, onde por ironia temos mais sol e calor e imploramos por chuva. Mas esse desejo não faz de um dia com temporal uma situação menos anormal para exercermos melhor a prática da indiferença. É sempre árdua mesmo.

Foto: Karina Bertoncini

terça-feira, 21 de julho de 2009

pés nunca serão raízes




o outro lado da montanha
se acanha
quando alguém o pisa

passos tiram o sossego
ocupam espaço
e comportam-se como visita

os moradores mesmo
são as raízes imóveis
que movem o começo da vida


Foto: Isabel Gomes da Silva

incerteza irresponsável




a incerteza que não cabe
de tão pequena
de tão leve

nem vale pena
guarda-la
por menor que seja
a caixa

mas é inevitável que escape
o invisível é irresponsável
e facilmente se espalha


Ilustração: Sofia Morgado.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A tarde




Era para ser apenas mais uma tarde. Não foi. Com ele nunca é. Companhia mais agradável não há. O engraçado é que na infância eu o considerava lento demais e confesso que isso me cansava um pouco. Mas hoje percebo que a agitada era eu. Na verdade ainda sou. A minha única evolução é ao menos sentir desejo de possuir a mesma calma e paz. Não é à toa que escolhi, ainda que inconscientemente, uma pessoa bem parecida para compartilhar a vida. Sim, eles são bem parecidos. Porém essas semelhanças e conhecidências não foram o que me levaram a começar esse texto. Foi a tarde de ontem. E nela estavam: eu, meu avô e o Centro do Rio de Janeiro. E entre uma obrigação e outra couberam muitas explicações sobre história, conversas, goles de suco de laranja americana (a mesma que ele tomava quando jovem na Travessa do Ouvidor), presentes divinos e mundanos e a ida ao Municipal que completava cem anos. Fomos apenas na porta, mas já foi o suficiente para terminar o passeio com chave de ouro. Na verdade com fotos na frente da águia de ouro. Mas como nada é perfeito, na bolsa estava apenas a câmera do celular. E apesar de amar a fotografia, confesso que nem era preciso o uso dela. Momentos como esse são registrados para sempre. Com ou sem tecnologia. Era preciso apenas estar ali.

Foto: Mãos dele.

sábado, 11 de julho de 2009

uma falta




Não é uma falta de ar
Mas é uma falta
Não desespera
mas causa
uma espera
exausta por algo
que salve a alma
dessa inércia
que te tão calma
estressa


Foto: Carlos Rocha

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Consumir pelo avesso




Sempre me interesso pelo avesso. Aprecio a costura, as linhas, os nós e as estampas ao contrário. Como está na vitrine é óbvio demais. Mas os olhos te todos os passantes, inclusive os meus, captam e logo consomem. Tornou-se tão banal esse processo. É a banalidade do consumo no qual o porquê e o pra quê nunca estão presentes. Hoje é difícil consumir sem se auto-sucumbir para tornar-se o que está do outro lado do vidro ou no folheto de anúncios. E isso de maneira nenhuma é uma mera crítica. É de fato uma autocrítica. Linhas gastas especialmente para mim. Linhas essas no sentido amplo da palavra. Admito encontrar nós, costuras erradas e excesso de linhas de vez em quando. Mas é tudo culpa minha. É quando consumo sem atentar nos avessos que tanto me interessam. Não se deve nunca perder os reais interesses de vista.

Foto: WEB.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

névoa triste




tristeza leve
como névoa
apenas serve
para embaçar
manhãs como essa
tão alegres de sol


Foto: Júlio Fernandes

terça-feira, 30 de junho de 2009

doze meses, quase treze




doze meses
quase treze
para a cicatriz
ser quase
como antes
pele

quase porque...

depois do pus
que deu febre
do gasto com gazes
e merthiolate
apenas um sinal leve
para a eternidade


terça-feira, 23 de junho de 2009

o que o chão encobre




o caminho é sujo
mas o medo é estúpido
e move seus súditos
ainda que não concordem
em serem apenas
os que percorrem
de um jeito pudico
e nada nobre
o chão
que encobre
tudo de lúdico
que alimentavam
até então


Foto: Tiago Barata.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Uma resposta




Fico feliz com as suas boas novas
talvez sejam as únicas
que fazem das minhas canetas
menos preguiçosas.

Não é à toa que esta folha
agora recebe esses pingos de tinta.
Formariam eles uma enorme poça?
Não sei. Mas se formasse não seria bem vinda.

Prefiro arrumar-los de forma sucinta
para entregar-lhe uma bela resposta
com as rimas que você ignora
e que um dia me deixaram faminta.

Não é à toa. Já bem disse.
Foram duas escolhas:
A sua de ser feliz e a minha
de também ser ao vê-lo ser
e comunicar através desta.
Enfim, felizes! Bem, já disse.


Foto: Paulo Viana.

terça-feira, 16 de junho de 2009

tranquilidade de um aquário




Hoje o dia foi corrido, mas a correria não foi a de sempre. Talvez até tenha sido, mas foi como se eu a admira-se de longe. Não! Na verdade foi de perto mesmo. Como quem admira um aquário. Tranqüila passei pelo dia, apesar das correntezas. Muitos números, alguns trabalhos, uma prova e um médico. Passei por eles como os peixes passam pela águas. Eles aproveitam a essência maleável do seu habitat mesmo quando agitado e com correntes. Aceitam que aquilo está intrínseco em suas vidas. Não há outra forma. Observar aquários faz bem. Em especial os de água salgada, naturalmente mais coloridos. O mar pode até ser mais turbulento, mas a tranqüilidade dos peixes é a mesma. Quem vê Discovery sabe.

Ilustração: WEB.

sábado, 13 de junho de 2009

autentiCidade




na sua autentiCidade moro
numa casa sem grades
e sem modos

obrigada por aceitar
meus tijolos
no seu solo

quarta-feira, 10 de junho de 2009

A grama que piso




Inocente não fui. Sou.
Acreditei nas sementes.
Foi o único jeito
de manter crescente
a esperança por árvores.
Até hoje, nada delas...
Apenas grama sem fim
depois de tanta espera.

Ilustração: WEB

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Antes das férias / Véiculos rastreados




Ando distante. Os prazos a cumprir tomam meu tempo. Logo esqueço de tomar a poesia líquida e fresca que nunca deixam meus dias áridos. Estou com sede e como sinto. Muito sinto mesmo. Com a língua seca perco paladar. Não sei ao certo o que açúcar e o que é sal. Com a falta de gosto não se vive bem. Na verdade se vive bem mal. Porém há vida após os prazos.

...


Será mesmo que todos os veículos de médio e grande porte são rastreados por satélites?


terça-feira, 2 de junho de 2009

pimenteira




ando estranha
questionando até
o porquê de ter
um vaso de planta

na verdade um pé
de pimenta malagueta
que não arde, não cheira
e nem o mal espanta

apenas uma beleza
de ver
de tão vermelha
de ser

é o que encanta na varanda
mas de encanto não se vive
a casa possui outros cantos
onde nenhuma pimenteira existe


Foto: Marcelino Teles