segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Vaga-lumes não são insetos


Vaga-lumes atraem até os olhos cansados.
São quase como estrelas
se o mundo estivesse de cabeça pra baixo.
Pontos de luzes fosforescentes
que acendem e apagam
em uma dança persistente
em uma palco de grama
ao som de uma orquestra de sapo.
E para onde vão, após o amanhecer?
Será eles duendes dançarinos
fugitivos noturnos de suas cidades?
E para que os humanos os vejam
fantasiam-se de purpurina verde
e acendem lâmpadas durante o espetáculo?
Tudo pela arte, e não interessa
com que tamanho ela apareça.
Que chegue em outras realidades,
e nelas alguma coisa aconteça.


Foto: Planta de tabaco fluorescente, contendo genes extraídos de vagalumes.

domingo, 16 de setembro de 2007

Escamas duplas


A mistura das águas não cura.
Pelo contrário, quase mata
aquele peixe que não sabe
exatamente por onde nada.

Sua realidade interna é confusa,
pela externa não ser única.
Então de maneira espontânea,
a criação de escamas duplas.


Foto: WEB

Trânsito de viagem


Quando tudo fluía, de repente um trânsito.
A culpa não foi da dúvida,
e sim da certeza
na estúpida escolha daquela curva
que acaba numa estrada parada e sem clareza.

E de repente o carro em movimento novamente.
Mas só após achar uma rua
sem cimento e pequena, mas a certa,
afinal é a que termina onde se quer ir.
E na paisagem, um belo sol se apresenta.


Foto: Voltando de Mangaratiba - 16-09-07

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Sua pimenta


A pimenta me faz bem.
Esquenta e arde
o gosto
até quando vem sem.
Isenta a possibilidade
de qualquer desgosto.
No almoço e no jantar
e até no café
de manhã
a sua ardência me convém.


Foto: Feira de sábado.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Deitada na praia


A música está alta
então não escuta
o próprio choro.
Olha pro céu
e tudo se torna
tão tolo.

A chuva chega
mas a calma é tanta
que até a chegada dela
é atrasada.

Aguentou a distância
mas não aguenta
quando esta se instaura
na proximidade.

Saudade de uma condição
mas não de alguém.
A distração afasta e cria
uma solidão acompanhada
para aquela pessoa deitada
na areia da praia.


Foto: WEB.

domingo, 9 de setembro de 2007

Alice Bartolocci


I

Ela sempre se perde nas datas
Mas não nesta.
Lembrou do all star que usava
na escuridão.
Da volta pra casa
com exata sensação,
de que não pisava
em nenhum chão.

A partir de então
mudava a rotina.
Ela ainda ia assistir
muita televisão.
Foi quando fechou a cortina
e o mundo já não contava
com a sua visão.

Anos onde ela falou menos
felicidade contida na rotina.
Planos eram pequenos
da casa para esquina.
A vida tornou-se pacata e certa
por vezes chata,
pela inércia.
E na data do nada
vem o que não se espera
a Tv foi desligada
e ela?

II

Em câmera lenta
sem pressa
sem sua presença
me despedi.
Não mais me enxerga.
Sumi no meio das águas,
no começo turbulentas
depois calmas.
A calmaria te intriga
não é falsa
é fria.
Não grita
como naquela noite
em que eu corria
de você
para lugar nenhum.
Corri assim
por longos dias
até perceber
que o chão
mudaria sempre,
mas não
meus pés.
Então os mudei,
e fui...
em minha direção.

III

Onde e como está?
Estático e intacto
em algum lugar
onde nossos pés
não conseguem mais
ser passos.
Existe no vago.
Talvez porque não tenha chão
talvez o espaço tenha aumentado
talvez porque hoje eu voe.
E voando nos desfaço
e faço uma nova distração.
Uma delas é a exibição
das minhas flores
que colho durante os vôos
com as cores do mistério
do que com elas não digo.


I - Datas perdidas
II - Minha despedida lenta
III - Flores colhidas no vôo
Foto: "Que fim levaram todas as flores?"

sábado, 8 de setembro de 2007

Poeira sobre uma mentira


Uma mentira encoberta
de um tipo de poeira
que o pano não retira.

Para ser lindo tem que estar limpo?

Talvez não perceba
que a sujeira faz parte
tanto da verdade, quanto da beleza.

Vínculos entre aparentes contrariedades.

A mãe mente
a existência de carne
por achar o bem do filho incoerente.

Incoerência pessoal. Mal não proposital.

Propósitos diferentes
faz o óbvio ficar a critério
de como cada um entende.


Foto: Poeira cósmica -> Cometa West – Esta imagem mostra a existência de duas caudas distintas. A cauda azul é constituída por plasma, enquanto que a cauda branca é formada por poeiras. A cauda azul aponta na direcção do Sol, mas a cauda branca alinha-se com a trajectória.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Cria - ção/nças


Não criem a crianças.
Deixe-as criarem
e se criarem
com apenas a cobrança
da criação.

Figura: WEB.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Onde estão as mãos e o diamante?


As mãos da perfeição usavam luvas,
e aquele objeto brilhante no cordão,
parecia, mas não era diamante.
E mesmo sem conhecer a pele
e o brilho sendo falso,
ela não se esquece do convívio
em que não precisava usar salto.


*para Can.
Figura: WEB

domingo, 2 de setembro de 2007

Verdade solar


É tarde, o sol no céu já não arde.
Embora brilhante em outro horizonte,
aqui ainda produz alguma forma de luz.
Luminosidade esta que não se encontra
em lâmpadas artificiais.
A artificialidade não emana
a verdade solar
que espanta qualquer sombra
que encanta em qualquer lugar
até onde se sonha
com um belo luar.


Foto: Entardecer da minha janela/2006.

Peças do tabuleiro


O conselho do que devo ou não fazer, dispenso.
O segredo é conversar com o que está dentro.

Conversas transparentes,
porque idéias não mentem
para a própria mente.

E só assim as peças do tabuleiro
ficam iluminadas na minha frente.


Foto: 19-07-07

Erros, passos e laços


E os erros se repetem
como passos em degraus,
ou como laços nas embalagens
de presente.
Nunca diferentes, sempre iguais,
independe de quem sobe e desce
ou de quem na loja faz.


Foto: do Peres, na casa do Pastor. 18-03-07

Energias sem cores não falam


Energias que circulam.
Não as vejo, sinto,
mas não as distingo.
Se fossem coloridas,
as vozes das cores diriam,
e apenas com verbos
eu obteria a distinção.
Seria desnecessário
frases inteiras.
Não é complexo,
é o que já se sabe:
somos o que fazemos.
Substantivos e adjetivos
são meros detalhes.


Figura: WEB

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Castelos de areia


Fabulosas gotas
na aridez feita
de areia
solta, bege e fosca.

Agora úmida
tornou-se perfeita e boa
para tornar-se castelos
singelos, infantis e belos.


Foto: WEB

Ausência do vermelho


O vermelho faz falta na pintura.
E esta ausência causa medo
mesmo podendo ser tudo
fruto de uma loucura,
que só eu vejo.

Talvez inexista tal cor na mente do pintor.
Talvez exista, mas não haja tinta.
Talvez haja, mas se com ela pintasse, ficasse desarmônico.
Ou talvez seja apenas,
olhos daltônicos.


Pintura: Pistilo