domingo, 26 de agosto de 2007

Poesia aleatória - versão 2


Aleatória devido
a um nascimento sem sentido.
Nasceu numa hora qualquer
sem tema
apenas com esse título.
Invadiu uma folha.
Não poupou a tinta
que pintou rimas soltas
para alimentar um vício.


Foto: 17-12-06 (Lendo Milan)

Quase um ser aéreo


De noite sempre os mesmos
rostos, riscos e restos.
Isqueiros por perto
significam fogo,
mas dele não quero.
Prefiro outro modo de luz,
através de método próprio.
Clareio com o que
minha imaginação produz.
Transformo o feio em belo,
o triste em alegre,
e o escasso em próspero.
E desse mesmo jeito levo
a vida. Sempre leve.
Quase um ser aéreo.


Foto: Um ser aéreo na Lagoa - 16-07-07

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O peso do nada e o tudo com asas


Pessoas leves voam.
Enquanto que as pesadas
são arrastadas para o centro
porque carregam dentro
o peso de não ter nada.
O tudo possui asas.


*No nulo tudo pesa.

Figura: Alcir Costa - retirado do livro "Arte para Criança"

Desperdícios


Os olhos da maldade,
os narizes aspirantes de ócio,
e as bocas que cospem ignorância.

Mãos covardes que furtam
boas intenções,
e com isso os pés fogem
de um destino nobre.

Pobres em todos os sentidos.
Imediatismo é o que os movem
para dias em desperdício.

Desperdiçam em vícios
que cobram e cobrem
com perigos e riscos
vidas.

Figura: WEB

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Pedaços mudos


Lapsos do que era
mesmo após
o desatar dos laços.
Regressa por nós
sermos o acúmulo
de pedaços deixados
mudos
e para trás.
Mas sobretudo
nossos.
E é por isso
um grito agudo
no silêncio óbvio
que se faz
depois do sentido
ser absurdo
e alguém incapaz.


Foto: 23-07-07

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Febre


Algo quer sair
pelo suor
que o falso frio produz
sem dó
no corpo de castigo
que foge da luz
e procura um abrigo
no delírio
que o conduz
por um labirinto
com loucuras
cheias de vínculos
com a realidade
nula de instintos.


Figura: WEB

domingo, 19 de agosto de 2007

Opinião sobre o chão


Pouco importa?
Não. Nem muito e nem pouco.
Não importa.
Opinão que indifere
nos pés de quem segue
sem olhar o que pisa.
O chão é concreto
e não faz diferença
do que ele é feito,
se é de cimento ou azulejo.
Importante é que eu o sinta.

Foto: 16-07-07

terça-feira, 14 de agosto de 2007

A nova pele


A fuga das ciganas
era o desejo pela distância
da mudança
que ainda não era
bem-vinda.
Elas sabiam que aquela
teria que morrer
por uma outra. Esta.
A morte não entendida
era apenas um corte
para a nova pele.
Troca atrasada pelo medo
transformada em pesadelo
que não mais serve.


Figura: Arcano XVII - Estrela/ Estella

domingo, 12 de agosto de 2007

Apetite da alma


Não quero o sal que salga.
Nem o açúcar que adoça.
Não é do óbvio
que minha alma se alimenta.
Não é uma alegria qualquer
que a contenta.
E nem é a beleza comum
que a encanta.
Ela experimenta a surpresa
até quando esta espanta.
Prova o que inova.
Nada que seja gélido e cético.
Tudo que seja e cause o inédito.


Foto: 05-05-07

A sala das cadeiras de palha


A sala que não mais quero estar
tem cadeiras de palha.
Sentadas nelas
pessoas se satisfazendo
com as migalhas de um pão
feitos pelas mãos da ilusão.
Só hoje a minha visão as enxerga.
Palmas tão falsas.
Unhas tão imundas.
Então digo "não" de forma sincera
ao ir embora depressa.

Figura: WEB

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Flores azuis


Quando avista
flores azuis
percebe o quanto
artista é
Deus.

Quando avisto
flores azuis
percebo o quanto
artístico é
tudo.


Foto: Duas flores na Marquês.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Um mundo com apenas duas estações


Juntos criaram um mundo
com apenas as suas
duas estações.
Ele e seus verões.
(Dias enfumaçados por distrações)
Ela e seus invernos.
(Dias cinzas pelo tédio)
E como não havia
outono e primavera
ficaram os dois à espera
pra sempre
de vento e de flores.
Afinal, não se via da janela deles
a beleza óbvia das cores
e também a tristeza bela
que só as folhas secas possuem.


Foto: Bar do Zé/ tarde de 01-07-07

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Idéias embaralhadas


Talvez eu atrapalhe.
Apenas embaralhe
as cartas desse jogo
com regras disfarçadas.
A minha idéia fecha
o que uma outra abre.
Ou vice-versa?
É doce
fazer paz na guerra.
Como é amargo
o contrário.
Mas o que interessa
é o que fica:
um estrago.


Foto: War.

Extenso silêncio


Meu silêncio
nunca foi
tão extenso.

Só penso.

Converso com
o que está dentro.

Papos intensos.

E é por esses versos
que tento
coloca-los para fora.

Demora.

O processo
está lento.

Espero.

Então me contento
fazendo estes
agora.

Figura: Web

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Um quadro em branco


Pincéis,
potes de tinta
e um quadro
em branco.

No entanto
não sei o que faço.
As mãos estão imóveis
e a imaginação com cansaço.

Disfarço nos papéis
com rascunhos à lápis.
Mas no fundo são fiéis
a tudo já criado.


Figura: Pintor a la Luna. 1917 - Marc Chagal