Aleatória devido a um nascimento sem sentido. Nasceu numa hora qualquer sem tema apenas com esse título. Invadiu uma folha. Não poupou a tinta que pintou rimas soltas para alimentar um vício.
De noite sempre os mesmos rostos, riscos e restos. Isqueiros por perto significam fogo, mas dele não quero. Prefiro outro modo de luz, através de método próprio. Clareio com o que minha imaginação produz. Transformo o feio em belo, o triste em alegre, e o escasso em próspero. E desse mesmo jeito levo a vida. Sempre leve. Quase um ser aéreo.
Lapsos do que era mesmo após o desatar dos laços. Regressa por nós sermos o acúmulo de pedaços deixados mudos e para trás. Mas sobretudo nossos. E é por isso um grito agudo no silêncio óbvio que se faz depois do sentido ser absurdo e alguém incapaz.
Algo quer sair pelo suor que o falso frio produz sem dó no corpo de castigo que foge da luz e procura um abrigo no delírio que o conduz por um labirinto com loucuras cheias de vínculos com a realidade nula de instintos.
Pouco importa? Não. Nem muito e nem pouco. Não importa. Opinão que indifere nos pés de quem segue sem olhar o que pisa. O chão é concreto e não faz diferença do que ele é feito, se é de cimento ou azulejo. Importante é que eu o sinta.
A fuga das ciganas era o desejo pela distância da mudança que ainda não era bem-vinda. Elas sabiam que aquela teria que morrer por uma outra. Esta. A morte não entendida era apenas um corte para a nova pele. Troca atrasada pelo medo transformada em pesadelo que não mais serve.
Não quero o sal que salga. Nem o açúcar que adoça. Não é do óbvio que minha alma se alimenta. Não é uma alegria qualquer que a contenta. E nem é a beleza comum que a encanta. Ela experimenta a surpresa até quando esta espanta. Prova o que inova. Nada que seja gélido e cético. Tudo que seja e cause o inédito.
A sala que não mais quero estar tem cadeiras de palha. Sentadas nelas pessoas se satisfazendo com as migalhas de um pão feitos pelas mãos da ilusão. Só hoje a minha visão as enxerga. Palmas tão falsas. Unhas tão imundas. Então digo "não" de forma sincera ao ir embora depressa.
Juntos criaram um mundo com apenas as suas duas estações. Ele e seus verões. (Dias enfumaçados por distrações) Ela e seus invernos. (Dias cinzas pelo tédio) E como não havia outono e primavera ficaram os dois à espera pra sempre de vento e de flores. Afinal, não se via da janela deles a beleza óbvia das cores e também a tristeza bela que só as folhas secas possuem.
Talvez eu atrapalhe. Apenas embaralhe as cartas desse jogo com regras disfarçadas. A minha idéia fecha o que uma outra abre. Ou vice-versa? É doce fazer paz na guerra. Como é amargo o contrário. Mas o que interessa é o que fica: um estrago.
"Que estou fazendo a te escrever? estou tentando fotografar o perfume."
"Escrevo-te este fac-símile de livro, o livro de quem não sabe escrever; mas é que no domínio mais leve da fala quase não sei falar. Sobretudo falar-te por escrito, eu que me habituei a que fosses a audiência, embora distraída, de minha voz." (Água Viva - Clarice Lispecor)